Temos o prazer de a/o convidar a acompanhar-nos no próximo dia 25 de Março, a partir das 16:00. A CódigoDesign abre portas ao público com a exposição Crisálida, de Nelson Sousa e Nettie Burnett, e as performances musicais de João Dias e Miquel Bernat.

Situado no nº 168 da Rua de Serpa Pinto, no Porto, este é um novo espaço de representação da criação portuguesa, onde pode encontrar peças de mobiliário de autor e acessórios relacionados, ícones da indústria de mobiliário nacional, obras das artes plásticas, elementos de design visual, e ainda diversas propostas de outras produções culturais.

A mpinteriores, gabinete de design de interiores, integra este espaço, acrescentando-lhe a possibilidade de conceber e produzir os diversos elementos do ambiente de habitação à medida das preferências de cada cliente.


Através da arte, a Nettie repõe a beleza onde ela, supostamente, já não existe; através da beleza, o Nelson encontra a arte onde ela, supostamente, nunca existiu.

Esta é a exposição de um encontro, entre dois criadores, entre duas linguagens, e entre dois percursos. É um diálogo, que se fundamenta na aceitação comum das múltiplas possibilidades, das interpretações alternativas, do potencial criativo da liminaridade. Através das imagens e dos objectos, os autores conversam sobre a plasticidade – do momento presente, das ideias, das representações, da sensibilidade perceptiva, da beleza e da arte, dos próprios referentes no seu continuum temporal.

Esse encontro começou num grande, enorme, armazém, em latência, esvaziado da sua actividade tradicional, à espera de uma metamorfose funcional e morfológica. Com o seu atelier, a Nettie transformou parte desse armazém num espaço dinâmico e de fascínio, com a estrutura a servir não só de abrigo, mas também de suporte, ou de tela. A associação entre o peso identitário do local e esta presença artística exacerbou no Nelson a intenção de produzir um registo documental daquele espaço, contentor de memória da actividade cuja deslocalização o esvaziara.

O registo fotográfico operou num vazio preenchido, de vestígios e indícios, em si mesmos marcas simultâneas de presença e ausência; preenchido com as múltiplas grafias das permanências e dinâmicas daquilo e daqueles que aí operaram ao longo do tempo; ou, até mesmo, com a simples passagem do tempo. Como o registo documental se quis sensível, interpretativo, participativo, o aparato fotográfico coadjuvou a imaginação para transformar essas grafias noutras tantas linguagens artísticas; que, aqui, tanto falam do passado, como podem exprimir o potencial do presente, e as muitas possibilidades criativas que este pode suportar.

A constituição de múltiplas linguagens num todo coerente faz também parte do trabalho da Nettie, em que diferentes níveis de complexidade e de abstracção contribuem para a riqueza expressiva da representação de uma temática naturalista, tão primordial como eterna, incontornável para toda a percepção sensível à raiz da nossa integração no espaço e no tempo.

Neste momento do seu processo produtivo, o corpo de trabalho que nos disponibiliza também parece remeter, reiteradamente, para os conceitos de metamorfose e de desintegração do ser, nas suas dimensões física e conceptual. Mas durante o processo cria-se uma dualidade sobre a valoração dessa desintegração. O momento mais frequente em que a autora capta os seus referentes coloca-os na fronteira entre a beleza e a decadência. No processo de representação cria-se um paradoxo para o objecto, que se eterniza nessa representação, apesar da inelutável continuação da sua anulação. A perda da vitalidade, física, conceptual ou funcional, dos seus referentes é contrariada pela polimorfia das suas reproduções, pela realocação ou transmutação das suas funcionalidades, e até pelo casual encapsulamento do próprio objecto, que congela a sua evolução.

Cada peça criada parece não ser mais que um momento do processo. Por vezes ocorre que são os próprios suportes da representação a evoluir para outros mais desenvolvidos, porventura mais expressivos, como se o objecto artístico quisesse recuperar não só a vitalidade conceptual mas também o vigor material perdidos pelo objecto original.

Num sentido inverso, certas sequências da sua criação mostram uma progressiva fragmentação da representação, no sentido da minimalização do traço, até à proximidade do limite de esvaziamento do espaço pictórico. Tal parece acompanhar o sentido de desvanecimento dos outros referentes com que trabalha em concomitância, o que, por esses desenhos, parece autorizar ideias de desmaterialização da generalidade do espaço concreto da realidade.

Este trabalho do Nelson também se focou num limiar de existência, entre a memória e o desaparecimento. Procurou os elementos significantes mínimos, equidistantes às percepções de saída e de presença. Encarou o vazio sem o sentir; o casulo de pedra delimita um espaço de referências, passível de ser preenchido com todas as representações. Ao vazio do espaço responde com o preenchimento das imagens, talvez porque para preencher um vazio baste a presença sensível do ser. Vê os seus referentes entre a decadência implícita e a beleza autorizada. Colocou as suas imagens entre a recolha e a sugestão, entre o documento e a criação. Permite ao seu objecto pairar entre a certeza do passado e a expectativa do futuro.

Aqui, os autores dialogam com traços e marcas, enquanto potenciam o único momento de que dispomos para continuar a imaginar.